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Rascunhos da genialidade

Biógrafo de Albert Einstein e Steve Jobs reconstitui a vida de Leonardo da Vinci com base em 7.200 páginas de anotações da época

13nov2018 | Edição #8 dez.17-fev.18

Em meados de novembro, um quadro bateu um recorde mundial, ao ser leiloado em Nova York por US$ 450,3 milhões. O novo proprietário não foi divulgado, mas a autoria da obra, chamada Salvator mundi, é atribuída ao pintor Leonardo da Vinci (1452-1519). A impressão inicial, ao se deparar com uma notícia dessas, é que há algo de errado no mundo. O que levaria uma pintura, seja ela de quem fosse, a valer quase meio bilhão de dólares? As respostas podem ser encontradas em Leonardo da Vinci, a mais nova biografia do grande mestre renascentista, desta vez pelas mãos do jornalista e escritor norte-americano Walter Isaacson.

Ex-diretor executivo da CNN e ex-editor da revista Time, Isaacson tem se especializado em escrever livros biográficos, e Leonardo da Vinci é possivelmente seu projeto mais ambicioso — e bem-sucedido. Vindo na esteira de seus livros sobre Benjamin Franklin (2003), Albert Einstein (2007) e Steve Jobs (2011), ele revela o interesse subjacente do autor por figuras históricas cuja obra misture filosofia, ciência e arte. E dificilmente seria possível achar alguém em que esse encontro das águas tenha sido mais prolífico do que em Leonardo.

Catatau

O resultado do esforço é um respeitável catatau de 640 páginas, que ao mesmo tempo nos aproxima e nos distancia da mente do biografado. Por um lado, ele mostra de uma forma bastante completa a abrangente, possivelmente inigualada, genialidade de Leonardo. Por outro, preserva a aura de mistério que paira sobre o renascentista, um véu que provavelmente permanecerá para sempre sobreposto à vida de alguém que fala a nós mais por meio de obras inacabadas do que por seu legado histórico.

Isaacson faz o melhor que pode para nos lançar além das brumas de sfumato que permeiam o pensamento de Leonardo — para citar uma das técnicas artísticas que marcaram a pintura do mestre: borrar as linhas de contorno em seus quadros para tentar refletir mais acuradamente a forma como o olho humano percebe o mundo. Ainda assim, se vê limitado por um acervo que, embora vastíssimo, Da Vinci jamais se esforçou para tornar facilmente inteligível.

“Meu ponto de partida para este livro não foram as obras-primas de Leonardo da Vinci, mas seus cadernos”, explica o autor, logo no começo do livro. “Para mim, sua mente está revelada de forma mais clara nas mais de 7.200 páginas contendo anotações e rascunhos que, milagrosamente, sobreviveram até hoje. O papel acabou se mostrando uma fantástica tecnologia de armazenamento de informações, ainda acessível após quinhentos anos, algo que nossos tuítes provavelmente não serão.”

É interessante notar que os cadernos de Leonardo, embora certamente contivessem obras completas para publicação em seu interior, jamais chegaram a ser organizados e compilados por seu criador com esse intento. São eles que revelam, a um só passo, tratados de anatomia que só chegaram a ter sua precisão superada, pelo menos em algumas descrições e descobertas, no século 20, ideias para incríveis obras de engenharia hídrica e aeronáutica — dentre elas, técnicas para desviar o curso de rios e rascunhos para aeroplanos e helicópteros —, estudos para algumas de suas pinturas conhecidas (e várias de suas obras abandonadas sem conclusão), listas de compras e coisas a fazer e relances de sua vida pessoal. Tudo isso escrito em pedaços de papel muitas vezes desconexos e de forma invertida, da direita para a esquerda, de modo que só se possa ler corretamente seu conteúdo se colocado à frente de um espelho.

Da Vinci não era um sujeito isolado, que trabalhava sozinho no ateliê, mas um ‘bom papo’ que valorizava o trabalho colaborativo 

Muito se especula sobre isso, como se houvesse um mistério ou uma tentativa de ocultar seus escritos da vista alheia, mas Isaacson nos assegura de que todos os textos são em bom italiano e assim produzidos apenas para que Leonardo, como canhoto, pudesse escrever sem que sua mão borrasse as letras em seguida — procedimento que também foi adotado por outros na época pelas mesmas razões.

O fato de que o livro se debruça sobre os cadernos de Leonardo nos permite entender como funcionava a mente desse homem que, a despeito de não ter tido educação formal de qualidade, parecia ser movido por uma curiosidade insaciável. Com isso, ele chegou a antecipar a base do método científico, que apenas um século mais tarde seria delineada e enunciada com clareza por pensadores como René Descartes e Galileu Galilei.

Muitas vezes, a análise desse material pode ser confusa para nós, acostumados que estamos a ter “gavetinhas” separadas na mente para tratar de assuntos diversos. A cabeça de Leonardo, não só por sua gama de interesses para lá de extensa, mas, sobretudo por sua forma de conectá-los, jamais operou desse modo. Numa mesma página de caderno, você pode encontrar tudo misturado. “Vemos sua mente e sua pena darem um salto de um insight sobre mecânica para os esboços de redemoinhos na água e nos cachos de cabelo, depois para o desenho de um rosto, então para uma engenhoca, em seguida para um rascunho de uma ilustração de anatomia, tudo acompanhado por anotações e reflexões registradas em escrita espelhada”, conta Isaacson. “Mas a beleza dessas sobreposições é o fato de que, com elas, podemos nos encantar com o espetáculo de uma mente universal transitando de forma exuberante e livre por todas as artes e ciências e percebendo, nesse processo, as conexões no cosmos. Podemos extrair dessas páginas, assim como ele extraiu da natureza, os padrões que interligam coisas que, a princípio, nos parecem desconexas.”

Claro, por mais encantador que seja entender a mente de Leonardo nesses termos, sua biografia seria muito difícil de ler se acompanhasse passo a passo todos esses saltos e rompantes. Nesse sentido, Isaacson faz um trabalho muito bom ao guiar-se pela cronologia da vida de seu biografado e usar capítulos para recortar interesses e trabalhos de da Vinci, em geral construindo boas pontes entre um assunto e o próximo. Além de favorecer a inteligibilidade, isso torna o livro uma valiosa fonte de consulta caso você queira, por exemplo, se concentrar ou relembrar algo sobre Salvator mundi, a obra que bateu o recorde no leilão e que, até 2011, ninguém sequer cogitava ter sido feita pelo mestre italiano.

Filho ilegítimo

Desta forma, o livro segue a trajetória de Leonardo desde o nascimento, filho ilegítimo do tabelião Piero da [cidade de] Vinci com uma camponesa, sua infância, o desenvolvimento de seu interesse pela arte (em especial pela pintura) e pela ciência (que àquela altura ainda se misturava à filosofia), sua sexualidade (Leonardo era um homossexual claramente à vontade com isso) e seu desinteresse pela religião (algo extremamente incomum na época).

Contrariando também a imagem que se costuma atribuir aos grandes gênios, da Vinci não era um sujeito isolado, que preferia trabalhar sozinho em seu ateliê. Muito pelo contrário, era visto por aqueles ao seu redor como alguém socialmente muito ativo, um “bom de papo”, alvo de admiração por todos, e que valorizava o trabalho colaborativo — algo que havia aprendido como discípulo de Verrocchio, em Florença.

Isaacson retrata as idas e vindas de Leonardo entre Florença e Milão, e por fim à França, e seu interesse – hoje talvez surpreendente — em desvencilhar-se da noção de que fosse meramente um pintor. Ao escrever uma carta ao duque Ludovico Sforza, de Milão, para oferecer seus serviços, em 1482, Leonardo se apresenta como engenheiro e arquiteto, enumerando coisas que saberia projetar, como pontes móveis, canhões, túneis subterrâneos, tanques de guerra e aquedutos. Apenas ao final dessa longa lista, quase como um complemento, ele diz: “Além disso, também sei esculpir em mármore, bronze e argila. Da mesma forma, na pintura, posso fazer tudo que for possível tão bem quanto qualquer outro, não importa quem seja”.

Na corte de Sforza, Leonardo se tornaria uma figura importante, mas talvez de forma improvável: sua principal atividade era entreter, produzindo espetáculos teatrais recheados de efeitos especiais e apresentações de literatura, no mais das vezes não erudita. Como o consumado ícone da Renascença, Leonardo parecia saber fazer tudo que fosse possível — e, de quebra, algumas coisas tidas por impossíveis.

Trabalhando em seu próprio ritmo e nunca satisfeito, se ele se apegasse a uma obra simplesmente se recusava a entregá-la

Numa dessas deliciosas contradições que só gênios podem se dar ao luxo de ter, a despeito de devotar tanta energia a essas atividades efêmeras, Leonardo da Vinci foi possivelmente o maior perfeccionista que já existiu. Tanto que, de todos os tratados que ensaiou desenvolver, jamais publicou nada, embora estivessem praticamente todos rascunhados em seus cadernos, esperando para ser redescobertos numa data futura. Dos desenhos técnicos, os únicos publicados foram para o livro de um amigo matemático. E apenas raramente dava seus quadros como concluídos.

Trabalhando em seu próprio ritmo e nunca satisfeito, se ele se apegasse a uma obra simplesmente se recusava a entregá-la — como foi o caso da Mona Lisa, que Leonardo começou a pintar em 1503 por encomenda do marido da retratada e jamais concluiu, dando retoques ocasionais até sua morte, em 1519.

Isaacson costura muito bem a vida de Leonardo à sua obra, nos oferecendo ensaios interessantes sobre as técnicas e os traços que fazem dos quadros do mestre renascentista obras de inigualável valor, e equilibrando isso com os outros variados interesses do biografado. Ao final do livro, saímos com duas impressões igualmente encantadoras: por um lado, a sensação de que conhecemos muito melhor essa figura singular que foi Leonardo da Vinci. Por outro, a percepção de que nem mesmo em dez vidas alguém pode ambicionar captar a verdadeira essência destilada neste personagem ímpar da história moderna.  

Quem escreveu esse texto

Salvador Nogueira

Escreveu Conexão Wright-Santos Dumont: a verdadeira história da invenção do avião (Record).

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.