Arte e fotografia,

Depois da tempestade

Acervo fotográfico de Bob Wolfenson, inundado em fevereiro deste ano, reemerge em livro

26jun2020

Em 10 de fevereiro de 2020, uma segunda-feira, Bob Wolfenson postou no Instagram uma foto aérea de um prédio alagado, com quatro carros mergulhados na água barrenta. “Estacionamento do meu estúdio. Não estamos conseguindo chegar lá pra saber o tamanho do estrago. Mas pelo volume de água, provavelmente perdi coisas do arquivo e equipamentos.”

Na madrugada, São Paulo havia sofrido a segunda maior chuva no mês de fevereiro em 77 anos. O rio Pinheiros atingiu o nível mais elevado desde que esse dado passou a ser medido, em 1967. A região da Lapa foi a que mais recebeu água da chuva, com 170 mm acumulados entre domingo e segunda. Além do estúdio de Bob Wolfenson, foram inundados na mesma região da cidade um depósito da Cinemateca Brasileira e a novíssima biblioteca do colégio Santa Cruz.

Quando a água baixou, no dia 11, foi possível entrar e começar a calcular o estrago. Sergio Burgi, coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, especializado na conservação de acervos fotográficos, viu a postagem no Instagram do amigo e mobilizou uma equipe para ir a São Paulo e coordenar a operação de salvamento com um grupo de voluntários.

“Começou uma corrida contra o tempo”, conta Burgi. Eles tinham no máximo seis dias para salvar o que fosse possível; depois, o destino do material provavelmente seria o lixo. Duas frentes de trabalho foram abertas: a lavagem e secagem de reproduções em papel e o congelamento de lotes inteiros de imagens. Burgi explica que as gelatinas e outras substâncias utilizadas nas reproduções fotográficas se modificam com a água; para ganhar tempo, é preciso interromper a degradação transformando líquido em sólido.


Gisele Bündchen [Bob Wolfenson]

Facilitou o fato de tudo estar em ordem: num trabalho em que cada hora conta, foi possível saber exatamente o que foi atingido e selecionar os lotes para higienização. “Sempre tive essa expectativa de que o acervo fosse uma coisa boa para o futuro. Um registro histórico, artístico, de uma época, de um período da minha vida”, diz Bob, que mantém um profissional contratado só para cuidar do acervo.

As fotos maiores receberam um banho de água limpa, depois de soluções de água deionizada, que favorece uma secagem mais uniforme, e foram penduradas no varal para secar. Na outra frente de trabalho, o conteúdo de gavetas recebia uma lavagem em lote, era embalado em plástico e transferido para dois freezers de grande porte. Burgi  diz que a estabilidade obtida no congelamento “tem a ver com pandemia”: ela retarda o avanço do mal enquanto as “UTIs”— as bancadas e varais de lavagem e secagem — estão sobrecarregadas.

Retratos

Entre agosto e dezembro de 2018, um centro cultural no bairro do Bom Retiro, na região central de São Paulo, expôs uma seleção de duzentos retratos que narram as cinco décadas em que se formou um dos maiores artistas visuais do país. Com curadoria de Rodrigo Vilella, a exposição Retratos foi o olhar mais abrangente já dedicado à obra de Bob Wolfenson, fotógrafo que conhecíamos de longa data, mas sempre nas homeopáticas doses dos ensaios de moda, anúncios, retratos para jornais e revistas ou capas de discos.

A mostra e o livro que dela resultou deixaram evidente a importância de Bob como narrador da vida brasileira. Ao sabor incerto das encomendas, do ritmo aleatório da publicidade, das pautas jornalísticas e de eventos, formou-se um conjunto de impressionante coerência e unidade. A iconografia criada por Bob Wolfenson faz parte da educação sentimental de quem tenha se formado no Brasil urbano pós-redemocratização — de tão presente em nossa vida, talvez ainda não tivéssemos nos dado conta disso.

“Essa assertividade em criar imagens que não podem ser esquecidas confere a ele um lugar único na fotografia brasileira”, diz Vilella, o curador da exposição. “Seu impressionante acervo retrata de forma muito plural a crônica de costumes dos últimos quarenta anos no país. Aos retratos somam-se ainda trabalhos em moda, publicidade, nus e sua obra autoral, o que faz dele o fotógrafo mais profícuo e um dos mais representativos do Brasil.”


Foto de Bob Wolfenson

De fato, está todo mundo lá, de Caetano a Gugu Liberato, artistas, políticos, esportistas, jornalistas, publicitários, modelos, gente, gente, gente. Gente brilhando e não morrendo de fome.

Ao ser indagado sobre quem faltou fotografar, Bob se lembra com dificuldade de apenas dois nomes. Marisa Monte e Mano Brown são as únicas lacunas, embora ele afirme também que “fotografaria até o presidente da República, por quem não tenho nenhuma admiração…”— e aqui a voz começa a hesitar. “… zero, ao contrário. Tenho repulsa.”

Não, ele está enganado: ele não poderia fotografar Jair Bolsonaro, pois Jair Bolsonaro não cabe num retrato de Bob Wolfenson, cuja obra compõe um imenso retrato da cultura e da sociedade brasileira em toda a sua grandeza. Crítico, contundente, sempre belo, o conjunto exala o otimismo e um certo hedonismo que deram o tom no país dos estertores da ditadura até 2013. Foi otimista até quando clicou a figura cafona e sombria de Paulo Maluf, em alto contraste com a luminosidade de todo o resto. Seria possível editar uma enciclopédia da cultura brasileira usando só as fotos do acervo de Bob Wolfenson.

Não é possível pensar na inundação do acervo do fotógrafo sem fazer uma analogia com o Brasil que está retratado nele. Entre as muitas piadas de mau gosto que somos obrigados a aturar, esta traz uma simbologia especialmente perversa.

Quarentena

A pandemia de Covid-19 interrompeu a operação de salvamento poucas semanas depois, mas a tempo de salvaguardar o acervo estragado antes que toda a equipe, inclusive Bob, se isolassem em quarentena. Uma nova fase da empreitada se inaugura: a elaboração de um projeto de recuperação, que deverá ter um custo de pelo menos 250 mil reais, que o fotógrafo pretende realizar com patrocínio. O Instituto Moreira Salles vai acompanhar o processo e fornecer assessoria técnica.

Quando a estrutura de recuperação estiver montada, será possível retirar seletivamente as imagens dos congeladores — pois elas foram congeladas na mesma ordem impecável em que Bob organizou o acervo — e planejar o trabalho no tempo ideal. A secagem, agora, já não é por evaporação, como no varal: com banhos químicos, busca-se a sublimação, isto é, o processo, muito utilizado na indústria alimentícia, que permite a passagem do gelo ao vapor, sem passar pelo danoso e instável estado líquido.


Foto de Bob Wolfenson

O que foi feito até agora, segundo Burgi, trouxe todo o material comprometido ao ponto de “fruição, exame e edição”, ainda que em temperatura abaixo de zero e precisando de muito trabalho para poder voltar às gavetas. Ou seja, Bob e sua equipe já estão em condições de trabalhar no material, buscar determinada imagem, priorizar os lotes para recuperação — e editá-lo, como foi feito no livro Sub/emersos.

A conservação de um acervo, conforme Burgi me contou em diversos pontos de nossa conversa, não envolve apenas a preservação e o restauro da materialidade das imagens, mas também criar as condições para que sejam pesquisadas e reinfundidas na circulação sanguínea da cultura. As estratégias para investir recursos em empreitadas caras e lentas como a recuperação de um acervo devem sempre levar em conta essa etapa final, sob risco de que tudo perca o sentido.

No texto que acompanha as fotos do livro, Bob conta que começou descartando as mais destruídas, rasgando-as. A certo ponto, percebeu que uma transformação estética estava acontecendo: as fotos ganhavam tridimensionalidade e novas formas, ditadas pelo capricho das águas sujas do Pinheiros.

Oscar Niemeyer emerge com olhar desafiador, as mãos no bolso escondidas pela mancha que vai subindo pela imagem. Ariano Suassuna parece nos encarar do fundo do mar. Corroídas, Luiza Brunet, Bruna Lombardi, Gisele Bündchen herdam a textura de eternidade da estatuária em ruínas, e o corpo nu, tão maltratado pela banalidade dos nudes, tem sua dignidade restituída. Como se pudesse ser reinventado assim, por acaso, sem querer, no meio do caos e da lama de uma tragédia.           

Recuperação

O acervo de Bob Wolfenson foi seriamente danificado, mas não se perdeu. Em uma repostagem, em seu perfil no Instagram, de um retrato do cantor Dinho Ouro Preto, Bob menciona ter perdido aquela imagem numa outra enchente, em 2005. Aquela inundação, embora menos volumosa que a de agora, terá causado mais danos que a de 2020, caso os planos de recuperação deem certo. Na época ele não contou com o socorro do IMS e nem cogitou tentar salvar. “Dei como perdido”, lembra. Agora, com mais imagens molhadas, ele provavelmente terá mais imagens salvas.

Cópias redundantes guardadas em outros locais, arquivos digitalizados, a eficaz operação de salvamento e a gestão organizada do acervo permitiram que quase tudo possa ser recuperado, não sem enormes recursos financeiros e humanos.

Numa tragédia como essa, os prejuízos materiais sempre são gigantescos, mas não há dúvida de que a perda sempre é mais pesada em termos de patrimônio cultural. O prejuízo material, afinal de contas, pode ser integralmente recuperado — para isso existem as companhias de seguro como a que dava nome ao centro cultural onde aconteceu a exposição Retratos.

O livro — ou melhor, catálogo da exposição — com a síntese da fina arte de Bob Wolfenson não está disponível em livraria nenhuma: esgotou por ocasião da mostra. Nem o local que a abrigou, um dos melhores espaços dedicados à arte contemporânea em São Paulo, existe mais. Poucos dias antes da inundação do acervo, o Espaço Cultural Porto Seguro demitiu a equipe inteira, de cerca de vinte pessoas, incluindo o curador da casa e da mostra de Bob, Rodrigo Vilella, e anunciou seu fechamento “temporário”, sem ter sinalizado, até agora, planos de reabertura.

O patrimônio fotográfico brasileiro continua aí, para ser fruído, analisado e editado por nós, que somos responsáveis por outra operação de salvamento — a do país, para que ele reemerja, se não em sua forma original, talvez mais belo, transformado pela lama.

Quem escreveu esse texto

Paulo Werneck

É editor da revista Quatro Cinco Um.