Repertório 451 MHz,

Mais ideias para adiar o fim do mundo

No podcast 451 MHz, o escritor Ailton Krenak fala sobre literatura indígena, capitalismo e os ataques do governo brasileiro aos povos da floresta

04jun2021

Está no ar o quadragésimo segundo episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros! Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. 

Neste episódio, nossa editora Paula Carvalho entrevista Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista, filósofo e autor de bestsellers como Ideias para adiar o fim do mundo e A vida não é útil (ambos Companhia das Letras), que tornaram-se referências de leitura sobretudo em tempos de pandemia.

 O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também!

O 451 MHz tem apoio da Rádio Companhia, o podcast da Companhia das Letras, que no último episódio abordou os vinte anos do livro Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato; e do Quarta Capa, da Todavia, que no episódio mais recente falou sobre as biografias de Raul Seixas, Belchior e Roberto Carlos por Jotabê Medeiros.

Ouça o 451 MHz aqui e agora:

Estupidez capitalista

Hoje figurando na lista dos autores mais vendidos do país, Ailton Krenak é conhecido do público brasileiro desde a década de 80, quando participou da assembleia nacional constituinte, que elaborou a constituição de 1988. Ele também organizou a Aliança dos Povos da Floresta, que reúne comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia, e é comendador da Ordem de Mérito Cultural da Presidência da República e doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. 

Nesta conversa, ele fala sobre o ofício de escritor e o cenário da literatura indígena contemporânea, as consequências do rompimento da barragem de Mariana para o rio Doce e para a comunidade Krenak e os perigos enfrentados pelos povos indígenas frente ao atual governo — e ao longo de toda a história brasileira. “Toda essa estupidez que caracteriza uma civilização capitalista parece que virou o único modelo de vida. Ideias para adiar o fim do mundo é uma provocação sobre esse modo insustentável de estar vivendo no mundo, que tem limite. A terra tem limite. A gente só tem um planeta pra viver, mas tem gente que parece que quer roer esse planeta até o fim”, diz ele. 

Krenak também fala sobre a ação predatória do governo — “O Estado brasileiro quer que o povo indígena se dane” — e diz que o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles está organizando milícias para invadir a floresta. “É escandaloso que um povo que vive dentro da floresta tenha que sofrer uma invasão garimpeira que, depois de se constituir numa invasão crônica, é acompanhada agora também pela presença do crime organizado. Não dá para imaginar que artifício é esse que o governo inventou de estender a realidade das favelas para dentro da floresta.” Ele também opina sobre o esvaziamento da Fundação Nacional do Índio: “A Funai não está esvaziada, está lotada, cheia de bandidos para atacar o povo indígena. E todos ganhando muito bem, pelo jeito.”

Literatura indígena contemporânea

Krenak é autor de três bestsellers pela Companhia das Letras: Ideias para adiar o fim do mundo (2019), O amanhã não está à venda (2020) e A vida não é útil (2021). Em 2000, publicou com Adriana Moura o livro O lugar onde a terra descansa, pela ONG Núcleo De Cultura Indígena, que fundou em 1985. Em 2000 também protagonizou o documentário Índios no Brasilproduzido pela TV Escola, que aborda a identidade, a cultura e os direitos indígenas.

          

Para ele, a literatura indígena vem se insinuando com escritores como Eliane Potiguara, Daniel Munduruku, Graça Graúna, Olívio Jekupé. “Vou pecar por omitir muitos outros de uma lista que talvez chegue a trinta, quarenta importantes escritores indígenas”, diz, ressaltando que essa literatura indígena é nova, não tendo mais do que vinte ou trinta anos. “A importância de ler autores indígenas é ouvir de viva voz como esses povos chegaram vivos ao século 21 atravessando tantas ameaças e tantas maldições.”

Acordar os homens

O convidado do 451 MHz cita um trecho da Canção amiga, de Milton Nascimento, que fala sobre “acordar os homens e adormecer as crianças”: “Se você tem alguém que é capaz de contar histórias e que faça acordar os homens e adormecer as crianças, você tem a poesia, a literatura, a arte. Você tem as coisas boas que os humanos são capazes de criar”. Sobre si próprio, pondera: “Não sou um artista que inventa enredos para distrair as pessoas. Sou um homem do meu tempo, e meu povo está ameaçado. Estou tentando contar histórias que façam as pessoa acordarem”.

Na Quatro Cinco Um

Na edição 37 da revista, Aparecida Vilaça resenha A vida não é útil: “Impressionam-me a paciência e a persistência de Ailton — assim como a de Davi Kopenawa, de Raoni Metuktire e de tantos outros — em nos ensinar, em permanecer ao nosso lado mesmo sabendo que vimos traçando caminhos opostos ao seu e de seus parentes indígenas, suprimindo as bases de sua existência, desrespeitando-os de todos os modos possíveis ao longo de cinco séculos”. 

A antropóloga também escreveu sobre Ideias para adiar o fim do mundo, na edição 24: “Ailton ensina que a luta por um mundo melhor envolve a dança, a música e as histórias contadas à noite”. 

Em janeiro de 2021, o podcast Revoar, do Centro de análise da liberdade e do autoritarismo (Laut), recebeu Krenak ao lado de Marcos Sorrentino e Mônica Sodré para uma conversa sobre como as democracias estão falhando com o clima.

Convidado da Flip em 2019, quando a festa homenageou Euclides da Cunha, autor de Os sertões, Krenak falou sobre a ressonância de Canudos na sociedade atual e defendeu a demarcação de terras indígenas — e fez uma pintura corporal no colega de mesa, o dramaturgo Zé Celso.

O 451 MHz é uma produção da Rádio Novelo para a Quatro Cinco Um
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Paula Scarpin e Vitor Hugo Brandalise
Produção: Gabriela Varella
Edição: Claudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger
Gravado com apoio técnico da Confraria de Sons e Charutos (SP).

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